A vida dá-nos indicações sob várias formas de que a morte não deveria assustar-nos, pelo contrário, que é agradável. O sono é-nos dado como um protótipo da morte, e lutamos por ele todas as noites, que nos dá o maior esquecimento da vida. Não tememos o esquecimento; desejamo-lo porque nos dá paz. O sexo também nos sugere como será agradável a morte, mas não prestamos atenção. Se pudéssemos morrer duas vezes, então talvez não receássemos a segunda vez. Tal como uma virgem receia a dor causada pela introdução do pénis, mas sente prazer da segunda vez e fica cheia de vontade de sexo e ansiosa por isso, não prestando atenção à insignificância da dor comparada com o prazer que recebe. Por isso só temos uma morte, para que ao percebermos o seu encanto da primeira vez, não nos sentíssemos mais poderosamente atraídos por ela do que pela vida. Deus não seria capaz de nos manter vivos, como não foi capaz de nos manter na inocência, e estaríamos continuamente a lutar por nos sucidarmos. O sexo é-nos dado como uma substituição para a morte múltipla. Depois de nos restabelecermos de uma morte doce, ficamos cheios de vontade de a experimentar outra vez.
Alexander Puschkine, in 'Diário Secreto'
Fonte: http://www.citador.pt
4 de setembro de 2008
30 de agosto de 2008
Virgem de ouro?
A seguinte notícia saiu ou vi neste artigo do Correio da Manhã.
"Tinha sete mil euros em ouro na vagina
Receberam ordem para parar, mas continuaram a condução perigosa perto da Praça do Chile, Lisboa. Na fuga tentaram atropelar um agente, tendo-lhe batido ligeiramente com a viatura em que circulavam. Eram 14h20 de ontem quando as duas mulheres, de 16 e 19 anos, foram detidas após a perseguição a alta velocidade.
Na esquadra, ao ser revistada, uma das mulheres mostrou-se desconfortável. A suspeita acabou por pedir para retirar uma luva de látex recheada de peças em ouro, avaliadas em 7669 euros, que tinha escondido na vagina. Ainda lhes foram apreendidos 1500 euros em dinheiro e artigos em prata.
O irmão de uma das suspeitas foi detido ontem à tarde, a tentar assaltar uma residência no Alto de São João. "
---------------------------------------------------------------------------------
Como provavelmente a maioria das pessoas, dei maior atenção aonde foi escondido o ouro, e admito que surgiram-me várias ideias para o título do tópico. Ao contrário dos últimos crimes que se notíciam, eu até achei graça a este. Mas depois....
... mas depois surgiram-me duas questões:
- Se a "mulher" estava desconfortável numa esquadra e pediu que lhe fosse retirado a luva de dentro da vagina, quem é que tirou a luva? Será que a dita esquadra tinha agentes femininos? E se foi um agente masculino, será que a "mulher" é libertada porque apresenta uma queixa de assédio/abuso sexual contra a polícia? Da maneira como a justiça anda, não sei não!
- "Na fuga tentaram atropelar um agente, tendo-lhe batido ligeiramente com a viatura...". Como é que alguém que tenta atropelar uma pessoa, apenas consegue bater ligeiramente? Que danos é que isso causou? Se calhar foi falta de jeito por a "mulher" não ter carta de condução, será que alguém viu isso?
Enfim, no meio de tanto "crime violento" uma notícia mais...engraçadita!
"Tinha sete mil euros em ouro na vagina
Receberam ordem para parar, mas continuaram a condução perigosa perto da Praça do Chile, Lisboa. Na fuga tentaram atropelar um agente, tendo-lhe batido ligeiramente com a viatura em que circulavam. Eram 14h20 de ontem quando as duas mulheres, de 16 e 19 anos, foram detidas após a perseguição a alta velocidade.
Na esquadra, ao ser revistada, uma das mulheres mostrou-se desconfortável. A suspeita acabou por pedir para retirar uma luva de látex recheada de peças em ouro, avaliadas em 7669 euros, que tinha escondido na vagina. Ainda lhes foram apreendidos 1500 euros em dinheiro e artigos em prata.
O irmão de uma das suspeitas foi detido ontem à tarde, a tentar assaltar uma residência no Alto de São João. "
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Como provavelmente a maioria das pessoas, dei maior atenção aonde foi escondido o ouro, e admito que surgiram-me várias ideias para o título do tópico. Ao contrário dos últimos crimes que se notíciam, eu até achei graça a este. Mas depois....
... mas depois surgiram-me duas questões:
- Se a "mulher" estava desconfortável numa esquadra e pediu que lhe fosse retirado a luva de dentro da vagina, quem é que tirou a luva? Será que a dita esquadra tinha agentes femininos? E se foi um agente masculino, será que a "mulher" é libertada porque apresenta uma queixa de assédio/abuso sexual contra a polícia? Da maneira como a justiça anda, não sei não!
- "Na fuga tentaram atropelar um agente, tendo-lhe batido ligeiramente com a viatura...". Como é que alguém que tenta atropelar uma pessoa, apenas consegue bater ligeiramente? Que danos é que isso causou? Se calhar foi falta de jeito por a "mulher" não ter carta de condução, será que alguém viu isso?
Enfim, no meio de tanto "crime violento" uma notícia mais...engraçadita!
26 de agosto de 2008
Amizade
Hoje relembraram-me um video antigo e resolvi fazer uma pesquisa no youtube para o poder partilhar aqui, são dois videos da mesma história, a que é apresentada está em português para facilitar a leitura e deixo o link para um outro video em inglês que mostra mais imagens e pormenores, os dois acabam por se complementar.
É a história de amizade entre humanos e animais, mas é um muito bom exemplo
O outro video basta carregar -> aqui <-
É a história de amizade entre humanos e animais, mas é um muito bom exemplo
O outro video basta carregar -> aqui <-
18 de agosto de 2008
Jardim ameaça fazer um novo partido
Não posso dizer que sou adepto do Alberto João Jardim, mas reconheço-lhe alguns trabalhos e até algumas virtudes, e até acredito que com partido novo ou não, se fosse líder que fazia muito mais coisas positivas pelo país do que a actual "balança política".
A notícia completa aqui
A notícia completa aqui
30 de julho de 2008
AMI e o Ambiente
Causas humanitárias e ecológicas é o que não falta por aí, umas mais activas que outras e parecem sempre ser uma gota no oceano, por outro lado são suficientes para pessoas dizerem "Não vou apoiar esta porque já apoiei aquela" ou algo parecido.
Não sei há quanto tempo existe esta iniciativa, mas para quem tem o dilema acima referido fica aqui uma pequena publicidade. A AMI (assistência Médica Internacional) lançou uma campanha de recolha de óleos alimentares usados para reciclagem e ao mesmo tempo cada litro de óleo recolhido é transformado em donativo para ajudar a AMI. Portanto, num simples acto de entrega do óleo usado cujo ponto de entrega pode estar logo ao lado da nossa porta (sim, pode ser o café, a pastelaria ou o restaurante da rua, ou mais que um - podem ver a lista dos pontos no site), com essa entrega estaremos a contribuir tanto ecologicamente como humanitáriamente/socialmente, um belo 2 em 1 não?
Fica o endereço do site da AMI para a referida campanha: http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p490p338&l=1
Não sei há quanto tempo existe esta iniciativa, mas para quem tem o dilema acima referido fica aqui uma pequena publicidade. A AMI (assistência Médica Internacional) lançou uma campanha de recolha de óleos alimentares usados para reciclagem e ao mesmo tempo cada litro de óleo recolhido é transformado em donativo para ajudar a AMI. Portanto, num simples acto de entrega do óleo usado cujo ponto de entrega pode estar logo ao lado da nossa porta (sim, pode ser o café, a pastelaria ou o restaurante da rua, ou mais que um - podem ver a lista dos pontos no site), com essa entrega estaremos a contribuir tanto ecologicamente como humanitáriamente/socialmente, um belo 2 em 1 não?
Fica o endereço do site da AMI para a referida campanha: http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p490p338&l=1
23 de julho de 2008
Notícias
Consegue ser cómico ou triste alguns cabeçalhos de notícias, hoje deu para (re)ver algumas noticias e vou colocar aqui algumas (carregar no cabeçalho para ver a notícia completa) e um pequeno comentário a cada. São quase todas da mesma fonte - "Destak", com excepção da última que é do "Expresso".
"Bulgária punida por luta insuficiente contra corrupção
A Comissão Europeia suspendeu hoje a ajuda de centenas de milhões de euros à Bulgária por entender que a luta contra a corrupção e o crime organizado no país não está a ser suficiente. A Roménia também foi criticada neste aspecto, mas não foi sujeita a sanções."
- Eu acho que esqueceram-se de alguém, mas pode ser só impressão.
"INTERNACIONAL
Venezuela abre portas à Rússia para instalação de bases militares"
- É agora que os americanos se lixam... ou não!
"TERRORISMO
ETA apanhada com mapa de Lisboa"
- Será que é agora que o meu local de trabalho vai ao ar?
"MÉXICO
Frases do Antigo Testamento usadas para fomentar uso do preservativo"
- Agora quero ver o Vaticano/Igreja a descalçar esta...:)
"INSEGURANÇA
Autarquias criam guia para tentar evitar os guetos"
- Isso, com manuais vamos lá, já agora façam um para governar o país!
"ALEXANDRE QUINTANILHA
«Tenho mais medo da clonagem cultural do que da genética» "
- Pertinente!
"PS
Sócrates defende Código de Trabalho contra "embustes" do PCP e BE"
- Partidos à parte mas ... olha quem fala!
"Aviso sobre níveis de ozono chega tarde"
- Nãaooo, sério?
"LOURES
Paulo Portas questiona autoridade do Estado"
- Faltou dizer "outra vez".
"CASCAIS
Contrato de gestão do novo Hospital chumbado
O Tribunal de Contas chumbou o contrato de gestão assinado com o grupo Hospitais Privados de Portugal (HPP) relativo ao novo Hospital de Cascais, confirmou hoje à Lusa fonte oficial daquele organismo."
- Bem, passo a passo o TC lá vai conseguindo suspender as merdas antes de acontecerem, assim de repente esta é a segunda :S depois de negarem o empréstimo da CML
"CHILE
Mata a filha por não querer estudar"
- Nem comento, não dá para fazer comentário pequeno...
"Fiscalização
Lojas de sexo na mira da ASAE"
- Mas porque raio isto não passou na televisão? Isto sim, dá gozo ver a ASAE em acção.
Muitas mais notícias podiam vir para aqui, e muitas mais vão aparecer por aí nos jornais
"Bulgária punida por luta insuficiente contra corrupção
A Comissão Europeia suspendeu hoje a ajuda de centenas de milhões de euros à Bulgária por entender que a luta contra a corrupção e o crime organizado no país não está a ser suficiente. A Roménia também foi criticada neste aspecto, mas não foi sujeita a sanções."
- Eu acho que esqueceram-se de alguém, mas pode ser só impressão.
"INTERNACIONAL
Venezuela abre portas à Rússia para instalação de bases militares"
- É agora que os americanos se lixam... ou não!
"TERRORISMO
ETA apanhada com mapa de Lisboa"
- Será que é agora que o meu local de trabalho vai ao ar?
"MÉXICO
Frases do Antigo Testamento usadas para fomentar uso do preservativo"
- Agora quero ver o Vaticano/Igreja a descalçar esta...:)
"INSEGURANÇA
Autarquias criam guia para tentar evitar os guetos"
- Isso, com manuais vamos lá, já agora façam um para governar o país!
"ALEXANDRE QUINTANILHA
«Tenho mais medo da clonagem cultural do que da genética» "
- Pertinente!
"PS
Sócrates defende Código de Trabalho contra "embustes" do PCP e BE"
- Partidos à parte mas ... olha quem fala!
"Aviso sobre níveis de ozono chega tarde"
- Nãaooo, sério?
"LOURES
Paulo Portas questiona autoridade do Estado"
- Faltou dizer "outra vez".
"CASCAIS
Contrato de gestão do novo Hospital chumbado
O Tribunal de Contas chumbou o contrato de gestão assinado com o grupo Hospitais Privados de Portugal (HPP) relativo ao novo Hospital de Cascais, confirmou hoje à Lusa fonte oficial daquele organismo."
- Bem, passo a passo o TC lá vai conseguindo suspender as merdas antes de acontecerem, assim de repente esta é a segunda :S depois de negarem o empréstimo da CML
"CHILE
Mata a filha por não querer estudar"
- Nem comento, não dá para fazer comentário pequeno...
"Fiscalização
Lojas de sexo na mira da ASAE"
- Mas porque raio isto não passou na televisão? Isto sim, dá gozo ver a ASAE em acção.
Muitas mais notícias podiam vir para aqui, e muitas mais vão aparecer por aí nos jornais
31 de maio de 2008
A Alegoria da Caverna
Um dos textos que mais marcou-me em termos escolares e que de certa forma ajudou a abrir a mente foi a "A Alegoria da Caverna" de Platão. Esta semana que se passou vi algo (já não me lembro do porquê) que fez relembrar-me o mito, e decidi transcrevê-lo neste tópico, será um bocadito longo (talvez) mas também só lê quem quer.
Segue-se então "A Alegoria da Caverna" de Platão, in "República":
- Imagina agora o estado da natureza humana com respeito à ciência e à ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagina uma caverna subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acessível. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlatães de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
- Estou a imaginar tudo isso.
- Imagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros, ou passam em silêncio.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros!
- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar, julgas que percepcionarão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?
- Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a conservar a cabeça permanentemente imóvel?
- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objectos que passam à sua rectaguarda?
- Não.
- Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras que vêem os nomes dessas mesmas coisas?
- Sem dúvida.
- E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam diante dos seus olhos?
- Sim.
- E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?
- Não há dúvida.
- Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam. Liberte-se um desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço; a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de distinguir os objectos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos objectos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?
- Sem dúvida.
- E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade? Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo quanto se lhe mostra?
- Certamente.
- Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o fulgor dela, poderia ver alguma coisa da multitude de objectos a que chamamos seres reais?
- De início ser-lhe-ia impossível.
- Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, as sombras; e, logo a seguir, as imagens dos homens e dos mais objectos, reflectidos à superfície das águas; por fim, os próprios objectos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do que durante o dia, à luz do Sol.
- Sem dúvida.
- Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas e em tudo aquilo em que se reflicta, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro Sol no seu verdadeiro local.
- Sim.
- Depois disto, pondo-se a reflectir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.
- É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.
- E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que permaneciam cativos?
- Certamente.
- Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles, segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?
- Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a viver de tal modo.
- Atenta, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem da luz do dia para a obscuridade?
- Sim.
- E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima, perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?
- Indiscutivelmente.
- Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva até à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do qual a luz irradia directamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.
- Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.
- Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.
- Assim deve ser.
Segue-se então "A Alegoria da Caverna" de Platão, in "República":
- Imagina agora o estado da natureza humana com respeito à ciência e à ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagina uma caverna subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acessível. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlatães de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
- Estou a imaginar tudo isso.
- Imagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros, ou passam em silêncio.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros!
- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar, julgas que percepcionarão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?
- Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a conservar a cabeça permanentemente imóvel?
- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objectos que passam à sua rectaguarda?
- Não.
- Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras que vêem os nomes dessas mesmas coisas?
- Sem dúvida.
- E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam diante dos seus olhos?
- Sim.
- E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?
- Não há dúvida.
- Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam. Liberte-se um desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço; a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de distinguir os objectos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos objectos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?
- Sem dúvida.
- E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade? Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo quanto se lhe mostra?
- Certamente.
- Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o fulgor dela, poderia ver alguma coisa da multitude de objectos a que chamamos seres reais?
- De início ser-lhe-ia impossível.
- Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, as sombras; e, logo a seguir, as imagens dos homens e dos mais objectos, reflectidos à superfície das águas; por fim, os próprios objectos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do que durante o dia, à luz do Sol.
- Sem dúvida.
- Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas e em tudo aquilo em que se reflicta, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro Sol no seu verdadeiro local.
- Sim.
- Depois disto, pondo-se a reflectir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.
- É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.
- E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que permaneciam cativos?
- Certamente.
- Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles, segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?
- Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a viver de tal modo.
- Atenta, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem da luz do dia para a obscuridade?
- Sim.
- E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima, perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?
- Indiscutivelmente.
- Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva até à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do qual a luz irradia directamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.
- Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.
- Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.
- Assim deve ser.
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